Alterações climáticas e
política de segurança
O
artigo que publicamos neste número da newsletter,
sobre os desafios geopolíticos e geoestratégicos colocados pelo degelo no
Oceano Ártico, constitui um excelente exemplo do impacto que as alterações
climáticas têm na segurança regional e global.
Mais
próximo de nós, e com implicações na segurança europeia, a seca que nos últimos
anos (2010-2012) tem atingido o Norte de África é uma das causas avançadas como
tendo antecipado a “Primavera Árabe” e tem sido potenciador do conflito no
Darfur (Sudão). As consequências ambientais do aquecimento global traduzem-se,
nessa região, na desertificação crescente que leva à escassez alimentar. A
redução dos recursos hídricos fomenta a escalada dos conflitos étnicos, e
intensifica os fluxos migratórios (com a Europa como destino preferencial).
A
desertificação no Sahel é um fator,
entre outros, que ajuda a compreender a ascensão dos grupos islâmicos radicais,
o incremento da criminalidade organizada transnacional (droga e armas) e a
ausência, por incapacidade dos Estados da região, de um efetivo poder estadual
(uma espécie de no man’s land onde
prosperam as atividades fora-da-lei).
Harald Welzer, num estimulante livro com o
título “Klimakriege” (que poderíamos traduzir por “As Guerras do Clima”),
alerta para a natureza dos conflitos armados que podem eclodir no Séc. XXI. Os
recursos vitais, como os energéticos e a água, estarão no epicentro de guerras
civis ou inter-estaduais. A nova “geografia da fome” será, nestes termos,
catalisadora de violência.
As
alterações climáticas não são, de per si,
uma ameaça à segurança dos Estados, mas constituem indiscutivelmente um
“multiplicador das ameaças”. Como bem lembrou Obama no discurso da atribuição
do Nobel da Paz, em dezembro de 2009, “there
is little scientific dispute that if we do nothing, we will face more drought,
more famine, more mass displacement –all of which will fuel more conflict for
decades”.
Assim,
a arquitetura de segurança contemporânea de qualquer Estado não pode deixar de
ter em consideração os efeitos induzidos pelas alterações climáticas, e tal deverá
ser refletido no novo conceito estratégico de defesa nacional.
Boas leituras!
Nuno Pinheiro Torres
Nuno Pinheiro Torres
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